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Crítica Semanal da Economia

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EDIÇÃO 1103/1104 – Ano 27; 2ª e 3ª semanas Abril de Maio 2012.

MOEDA E DESEMPREGO.

Para que serve um Banco Central sem taxa de juros? Para quase nada. O problema (seríssimo) com que o Federal Reserve (Fed), banco central do planeta, se defronta neste momento, é justamente lidar com essa perigosa armadilha de se manter por muito mais tempo a sua taxa básica de juros no perigoso território das taxas superzero.
  JOSÉ MARTINS

Se depender da discussão entre os economistas mais populares da cena mundial será difícil entender as causas (e menos ainda a solução) do elevado desemprego que assombra as economias dominantes. Começando pela maior economia do planeta. O nível da discussão caiu um pouco mais, na semana passada, quando o popular prêmio Nobel de economia Paul Krugman disse em artigo no jornal New York Times que o a rígida política monetária executada pelo Fed, banco central dos EUA, é a causa do elevado desemprego dos trabalhadores no país.
E provoca seu antigo chefe, que o contratou (inadvertidamente, podemos acrescentar) para dar aulas no departamento de Economia na Universidade de Princeton, em 2000. Diz ele que Ben Bernanke, atualmente presidente do Fed, teria mudado sua própria opinião do final dos anos 1990 – quando recomendava aos japoneses em ensaios acadêmicos que expandissem a inflação como remédio contra a grande recessão e deflação dos anos 1990 – não a aplicando na política praticada pelo Fed hoje.

PROPOSTA OBSCENA – Para o eclético economista, o Fed deve executar o que Bernanke preconizara para os japoneses: um fulminante aumento dos preços ao consumidor, quer dizer, “criar uma inflação de pelo menos 4 por cento” para reanimar a economia e “colocar os americanos de volta ao trabalho”. Como ele justifica sua tão sofisticada proposta? Muito simples: “A expectativa de uma elevada inflação ajudaria a economia, pois convenceria investidores e homens de negócio que ficar sentado em cima do dinheiro é uma péssima ideia” 1
Esse tipo de contorção mental, típica da pior vertente da economia vulgar (neoclássica ou keynesiana) tem pelo menos dois defeitos. O primeiro é genético: nosso voluntarioso Nobel de Economia, que não sabe qual a diferença de valor de troca e valor, como toda economia vulgar; consequentemente não sabe o que é moeda, que nada mais é do que uma forma do valor. Por essa má formação genética, ele acredita piamente que a moeda nasce no Banco Central e Bernanke tem toda autonomia do mundo para manobrar a seu bel prazer os preços reais da economia.
Que maravilha se essa elucubração fosse verdade. As crises econômicas já teriam sido abolidas há muito tempo. Aliás, nunca teriam existido. Nem o capital. Ao invés de uma contraditória lei geral da acumulação de capital comandando a dinâmica da economia, no ilusório mundo da economia vulgar existiriam apenas desequilíbrios ou falhas facilmente corrigíveis do virtuosíssimo mercado de oferta e demanda de moedas, de utilidades, de fatores de produção e de prêmios Nobel de economia.
Exagero? Pois é assim que a idiotia econômica imagina a vida econômica real. Depois que eles apagaram dos livros-texto e dos cursos de Economia a lei do valor-trabalho dos grandes economistas – Petty, Sismondi, Smith, Ricardo, Marx, etc., por simples instinto de sobrevivência dos capitalistas, proprietários fundiários e outras classes improdutivas – esses falsários foram condenados a vagar pelo mundo como laureados zumbis acadêmicos a repetir asneiras sobre a moeda e outras categorias da verdadeira Economia Política.

HELICÓPTEROS ENFERRUJADOS – O segundo e mais grave defeito da proposta da nossa laureada musa da superficialidade econômica é de ordem prática. Ou, melhor dizendo, de irresponsabilidade. O próprio Bernanke, que, independentemente de sua filiação teórica, é um economista inteligente, e é isso que interessa, explica ele mesmo:
“Existe essa visão circulando de que as opiniões que exprimi a 15 anos atrás sobre o Banco do Japão são contrárias a nossas políticas atuais. Isso é absolutamente incorreto. Minha opinião e nossa política atual são completamente consistentes com as opiniões que eu sustentava naquela época. A questão é se faz algum sentido incentivar uma elevada taxa inflacionária para conseguir uma levíssima queda da taxa de desemprego. O ponto de vista do comitê do Fed é que isso seria muito irresponsável”. 2
Na atual quadratura do ciclo, a proposta irresponsável de Krugman, mais que indecente, equivaleria a retirar os helicópteros de Bernanke da garagem e retomar intermináveis e insanos voos rasantes sobre Wall Street lançando mais e mais QEs, os Quantitative Easing [relaxamento quantitativo], com os quais o Fed lançou os mais de três trilhões de dólares no mercado no auge da crise. De vez em quando, ainda se ouve vozes isoladas especulando sobre a possibilidade de um QE3. Mas essas vozes são cada vez mais raras. Tendem a silenciar por completo.
A irresponsabilidade de Krugman a que se refere Bernanke decorre do fato que devido àquela má formação genética que nos referimos acima, ele é incapaz também de acompanhar as mudanças da dinâmica econômica no decorrer do ciclo de negócios. Mas para quem entende um pouco de deflação e inflação, como o próprio Bernanke, Greenspan, Summers, Roach, etc., não é preciso muito esforço para entender que relançar os QEs agora seria uma idiotice completa.
Os helicópteros de Bernanke já estão enferrujados. É coisa do passado, do período 2008-2010. Agora, mesmo com uma recauchutagem dos velhos aparelhos, injetar mais moeda no mercado não faria nenhum efeito sobre o crescimento econômico – apenas aumentaria a conta que será cobrada (com juros e correção monetária, já que estamos a falar de mercado monetário) no final do atual período de expansão. O mesmo vale para mais gastos do governo que aumentassem doravante a também exaurida dívida pública.

O VERDADEIRO PROBLEMA – O Fed ainda dispõe de instrumentos para regular energicamente o mercado? Como o fez em todo o período pós-guerra? Ou já atingiu a exaustão? Bernanke repete sem parar aos homens do mercado que a deflação foi vencida e que o Fed, mesmo com a inutilidade da sua taxa zero de juros, típica de uma moeda refém de uma armadilha de liquidez, deflacionária, dispõe de outras ferramentas para operar a sua política monetária. Quais são essas ferramentas? Isso é um grande mistério.
É claro que as raposas do mercado desconfiam dessas afirmações. Com dinheiro em jogo dissimulação não pega. As expectativas criadas pelas autoridades monetárias são cada vez menos racionais. Mas enquanto a indústria reguladora do preço de produção do mercado mundial continuar seu atual período de expansão e acumulação cíclica a aumentar a produtividade do trabalho e a inundar de mais-valia os cofres dos capitalistas e demais classes proprietárias em todo o mundo, todos fazem de conta que o Fed ainda tem muitas e eficientíssimas ferramentas para agir.
Para que serve um Banco Central sem taxa de juros? Para quase nada. O problema (seríssimo) com que o Fed se defronta neste momento é justamente lidar com essa perigosa armadilha de se manter por muito mais tempo a taxa básica de juros do banco central do planeta próximo de zero.
É importante salientar que é devido a condições muito particulares do atual período de expansão que o Fed é obrigado a fazer o que se chama no mercado de forward guidance (“indicação de tempo” tradução livre): prefixar que até meados de 2014 a taxa básica de juros da maior economia do planeta é imexível, quer dizer, permanecerá no fatídico território das taxas superzero.
No mesmo território, aliás, que permanece até hoje a taxa básica do Banco do Japão. Pelo que nos lembramos, essa é a primeira vez que o Fed se utiliza de um forward guidance de tão longa duração. Não é a melhor confissão de que o Fed está exaurido?
Se, no final dos anos 1990, as recomendações do professor doutor Ben Bernanke não ajudou aos japoneses a extirpar de vez o tumor que ainda se aloja na terceira grande economia dominante mundial (a segunda é a Alemanha do capenga euro), elas funcionarão agora em sua própria casa? Talvez.
De todo modo, o atual período de expansão tem prazo curto de validade. Não mais que dois a três anos, se tanto. Aí poderemos esclarecer essas dúvidas da maneira mais prática possível. Vale a pena esperar, pois o espetáculo será grandioso.

1 Bloomberg News – “Krugman Says Fed ‘Reckless’ to Allow High Jobless Rate” [Krugman Declara que Fed é ‘Irresponsável ’ ao Permitir Alta Taxa de Desemprego] – http://www.bloomberg.com/news/2012-04-30/krugman-says-fed-should-allow-inflation-to-rise-above-2-goal.html
2 Bloomberg News – Bernanke Takes On Krugman’s Criticism Ignoring Own Advice – [Bernanke rebate crítica de Krugman de que ele ignora sua própria recomendação] http://www.bloomberg.com/news/2012-04-25/bernanke-rejects-criticism-he-ignores-his-own-policy-advice.html

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Crítica Semanal da Economia

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EDIÇÃO 1101/1102 – Ano 26; 4ª semana Abril e 1ª de Maio 2012.

DESEMPREGO E TURBULÊNCIAS SOCIAIS. 

Os patrões não parecem muito preocupados com as consequências sociais, no futuro próximo, da perigosa estratégia de manipulação sanguinária do exército industrial de reserva mais globalizado do que nunca. Seus economistas e seus burocratas das instituições multilaterais, ao contrário, estão inquietos.. E os subterrâneos se movem.

 JOSÉ MARTINS

A Organização Internacional do Trabalho (OIT), instituição burocrática da imperial Organização das Nações Unidas (ONU), em seu anual “Relatório Sobre o Trabalho no Mundo 2012: empregos melhores para uma economia melhor” 1 – informa ao distinto público que ainda restam 50 milhões de empregos a menos do que havia às vésperas da eclosão da mais recente crise periódica do capital (2008/2009).
Se consideramos a recuperação iniciada há quase três anos, no terceiro trimestre de 2009, nos deparamos com uma particularidade muito importante do presente ciclo: não se tem notícia de nenhum outro ciclo anterior, pelo menos nos últimos setenta anos, que tenha apresentado tanta lentidão em reconvocar os reservistas do glorioso exército industrial de reserva mundial. Já tratamos deste fenômeno. Mas, antes de outros comentários, vejamos outras informações importantes do relatório da OIT, mantendo toda fidelidade ao texto e à sua burocrática linguagem de funcionários do capital:
● Desde 2007, antes da mais recente crise econômica mundial, as taxas de emprego aumentaram só em seis das trinta e seis economias ricas. Mesmo com os sinais de retomada econômica em certas regiões e países, a situação mundial do emprego é extremamente inquietante e não dá mostra nenhuma de alguma recuperação no futuro próximo. A taxa global de emprego de 60.3 por cento em 2011 ainda está 0.9 ponto percentual abaixo de antes da crise. Essa diferença quer dizer que aproximadamente 50 milhões de postos de trabalho foram perdidos na comparação com antes da crise.
● O desemprego se ampliou particularmente entre grupos mais vulneráveis, como os jovens (idade de 15 a 24 anos). As taxas de desemprego dos jovens aumentaram em cerca de 80 por cento nos países ricos e em cerca de 66 por cento nos países pobres (“emergentes” ou “em desenvolvimento”). Em média, mais de 36 por cento dos jovens que procuram emprego nas economias ricas estão sem emprego por mais de um ano (desemprego de longo prazo).
● Os níveis de pobreza aumentaram em 50 por cento das economias ricas e em 33 por cento das economias pobres. Ao mesmo tempo, as desigualdades se aprofundaram em 50 por cento das economias ricas e em 25 por cento das economias pobres. As desigualdades também se ampliaram em termos de acesso à educação, alimentação, terra e crédito.
● Em média, mais de 40 por cento dos trabalhadores procurando emprego nas economias ricas estão desempregados há um ano ou mais. Esses desempregados de longa duração são desmoralizados e perdem suas qualificações, o que afeta suas chances de encontrar um novo emprego. A maioria das economias pobres, ao contrário, registra um recuo do desemprego de longa duração assim como das taxas de inatividade. A taxa de desemprego de longa duração aumentou mais significativamente na Dinamarca, Irlanda, Espanha, Inglaterra e Estados Unidos.
● O trabalho a tempo parcial não voluntário aumentou em dois terços das economias ricas. O emprego temporário também aumentou na maioria dessas economias. O emprego informal situa-se em mais de 40 por cento em dois terços dos países pobres. Nos países ricos, os novos empregos criados no período recente também são cada vez mais precários. As formas de emprego não convencional estão a aumentar em mais da metade das economias pesquisadas.
● Em 26 dos 40 países dos quais a OIT dispõe de dados, a proporção dos trabalhadores cobertos por um acordo coletivo declinou entre 2000 e 2009. Vinte e oito por cento dos países pobres implantaram políticas visando reduzir as contribuições sociais durante a crise 2008-2009, frente a sessenta e cinco por cento nas economias ricas.
● Atingindo 19,8 % do PIB em 2010, os investimentos mundiais ficam a 3,1 pontos percentuais abaixo da média histórica, com tendência baixista mais pronunciada nas economias ricas. Em todas as regiões, as pequenas empresas tiveram seus investimentos afetados pela crise de maneira desproporcional.
Voltemos a nossa forma própria de expressão. Verificamos (ou confirmamos) com os dados da OIT que ocorre atualmente uma tendência à globalização da miséria da periferia em direção às principais metrópoles imperialistas. Melhor ainda, como essa pauperização globalizada é um poderoso instrumento para aumento da taxa de exploração na ponta do sistema.
Já falamos exaustivamente em boletins anteriores de como os capitalistas estão se aproveitando dessa estratégia de esmagamento dos salários e das condições de existência da classe operária nas principais economias do sistema – Estados Unidos, Zona do Euro e Japão. E de como esse brutal aumento da exploração e da miséria da classe operária mundial nos últimos anos foi a chave para a atual recuperação da economia de ponta do sistema e da diminuição da fervura da catástrofe na Europa, China, e outras áreas.
Conseguiram evitar a crise geral do capital aumentando adequadamente a taxa global de mais-valia e, simultaneamente, a pobreza das massas no centro do sistema. Mais-valia relativa como instrumento poderoso de criação de espaços de mais-valia absoluta. É neste sentido (e apenas neste) que se deve situar a particular taxa de desemprego que se apresenta no presente ciclo – o desemprego da classe operaria como virtude e não falha do mercado, que pode ser consertada politicamente (Estado), como sugerem ideologicamente os economistas em geral e os funcionários da OIT em particular.
Os patrões, enquanto isso, não parece muito preocupados com as consequências sociais, no futuro próximo, dessa perigosa estratégia de manipulação sanguinária do exército industrial de reserva mais globalizado do que nunca. Seus economistas e seus burocratas das instituições multilaterais, ao contrário, estão inquietos – os redatores do relatório da OIT, por exemplo, advertem logo de cara para a necessidade de se prepararem para “uma nova fase ainda mais problemática da crise mundial do emprego”.
Primeiramente, anotam eles, os jovens serão os mais afetados: “Entre os grupos por idade, desde 2007, a taxa de desemprego de longo prazo apresenta maior crescimento entre os jovens do que entre os adultos. Na metade das economias ricas, a taxa de desemprego entre os jovens passa de 15 por cento. Do mesmo modo, as taxas de inatividade também cresceram mais entre os jovens em todas economias. Isso tem um enorme custo econômico, em termos de perda de qualificação e motivação, e pode provocar uma depreciação do capital humano [sic]. Isso pode ser acompanhado também por movimentos sociais com crescimento dos conflitos sociais, revoltas, degradação, e assim por diante”.
Para medir as consequências sociais do desemprego, os funcionários da OIT apresentam um novo e interessante índice, que, doravante, tal como a taxa de desemprego, acompanharemos atentamente: “O clima social se deteriorou em numerosas regiões do mundo e novas turbulências sociais podem acontecer.
Segundo o Índice das Turbulências Sociais, como aparece neste relatório, 57 dos 106 países analisados mostram um risco crescente de conflitos sociais em 2011, frente a 2010”.
Veremos no próximo boletim como a discussão nem um pouco cordial entre digníssimos economistas do império em torno deste assunto de elevado desemprego na economia estadunidense demonstra a abissal debilidade da economia vulgar (neoclássica, keynesiana e algumas populares variantes marxistas) em esclarecer alguma coisa verdadeiramente útil sobre a dinâmica do trabalho, da produção e da reprodução material da sociedade capitalista. Até lá.

1 International Labor Organization – “World of Work Report 2012 – better jobs for a better Economy” – Genebra, 29/Abril/2012. www.ilo.org

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Isaac Levitan

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Crítica Semanal da Economia.

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EDIÇÃO 1098 – Ano 26; 1ª semana Abril 2012.

Uma Recuperação Imperial. 

A superpotência imperialista do início do século XXI herdou do antigo imperialismo britânico do século XIX o péssimo hábito de alavancar a recuperação cíclica da sua economia com a exportação da crise para o resto do mundo.

JOSÉ MARTINS.

Depois de notícias de preocupante desaceleração na produção industrial chinesa no mês de Março, pelo quinto mês seguido 1 – nesta semana foi a vez de o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) publicar dados assustadores de desaceleração da indústria brasileira:
“Na comparação com fevereiro de 2011, o total da indústria teve queda de 3,9%, sexta taxa negativa consecutiva nesse tipo de confronto e a mais intensa desde setembro de 2009 (-7,6%). Assim, o setor industrial acumulou perda de 3,4% nos dois primeiros meses de 2012. A taxa anualizada, indicador acumulado nos últimos doze meses, ao recuar 1,0% em fevereiro de 2012, prosseguiu com a trajetória descendente iniciada em outubro de 2010 (11,8%) e assinalou a taxa negativa mais intensa desde fevereiro de 2010 (-2,6%).” 2
Circulam no mercado opiniões de que as duas maiores economias emergentes do mundo correm o risco até de uma aterrissagem forçada nos próximos meses. Bobagem. Opiniões apressadas, como sempre ao sabor e ao humor de curto-prazo do mercado. Não levam em conta a dinâmica e a forma do ciclo econômico em ação – o destino do travamento atual da produção dos Brics nos próximos três anos depende do que está a acontecer na economia reguladora do mercado mundial. Façamos, então, uma rápida visita à distinta senhora do mercado e da acumulação capitalista global.

CENTRO ACELERADO – Se a produção industrial desacelera na periferia, na maior economia do planeta ocorre exatamente o oposto: no mês de Março passado, a produção industrial (manufaturas) dos Estados Unidos cresceu em ritmo mais acelerado do que vinha apresentando até agora:
“As manufaturas nos EUA expandiram a um ritmo mais acelerado em Março, gerado por aumento no emprego e na produção, sinal de que a maior economia do mundo está por trás do crescimento global. O índice industrial do Institute for Suply Management (ISM) subiu para 53,4 no último mês, frente ao índice 52,4 registrado em Fevereiro. Registros acima de 50,0 sinalizam crescimento... Quinze dos dezoito ramos industriais pesquisados pelo ISM expandiram no mês passado, o melhor resultado desde Abril de 2011. O indicador da produção fabril do ISM subiu para o nível mais alto em três meses e sua medição do emprego de força de trabalho subiu para seu nível mais elevado desde Junho 2011. Os fabricantes estão antecipando suas contratações de trabalhadores prevendo que a quantidade de encomendas vai aumentar. O curso ascendente da demanda para autos e lucros contínuos em investimentos industriais em novos equipamentos sustentam os fabricantes americanos. Gastos com equipamentos e software subiram a um ritmo de 7,5% no último trimestre de 2011, depois de uma elevação de 16,2% no trimestre anterior, de acordo com os últimos dados do Departamento do Comércio sobre o produto interno bruto.... A aceleração acontece ao mesmo tempo em que a indústria na Europa afunda por oito meses seguidos, mostrando que permanece o risco de desaceleração das vendas transatlânticas. O indicador da produção fabril da União Europeia caiu para 47.7 em Março, frente aos 49 em Fevereiro, divulgou hoje a londrina Markit Economics... Quanto à China, indicadores da HSBC Holdings e Markit Economics mostram contração na indústria manufatureira e queda nos pedidos para exportação...” 3
Como no longo período vitoriano do século XIX – em que a economia inglesa regulava o mercado mundial e tinha o péssimo hábito de exportar suas crises (e revoluções) para o continente europeu – neste início de século XXI americano a desaceleração do resto do mundo, pelo menos nos primeiros anos da recuperação cíclica, pode ser altamente providencial para a potência que agora substitui o velho imperialismo britânico expandir sua economia nacional.
Veremos no próximo boletim que a recuperação atual dos EUA é acompanhada de um reforço qualitativo das forças produtivas que ainda não se presencia nas demais economias do centro imperialista como Alemanha e Japão. Essa exclusividade certamente amplia ainda mais a supremacia estadunidense na hierarquia econômica e geopolítica mundial.

1 Bloomberg News – “China Manufacturing Contraction May Worsen, Data Show” [Contração da Indústria Manufatureira da China Pode Piorar, Segundo Relatório] , 22/arço/2012 http://www.bloomberg.com/news/2012-03-22/china-manufacturing-may-contract-for-fifth-month-survey-shows.html
2 IBGE – Brasil: Pesquisa Industrial Mensal Produção Física- 03/Abril/2012 http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/industria/pimpfbr/default.shtm
3 Bloomberg News – “Manufacturing in U.S. Grew at Faster Pace in March” [Manufatura nos EUA Cresceu em Ritmo mais Rápido em Março] 02/Abril/2012. http://www.bloomberg.com/news/2012-04-02/ism-index-of-u-s-manufacturing-increased-to-53-4-in-march.html

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Crítica Semanal da Economia (atrasada!)

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Por um descuido nosso, esse número da Crítica deixou de ser publicado na semana adequada. Alertados por um leitor atento do blog, podemos publicá-lo agora:

EDIÇÃO nº 1065; ano 26; 1ª sem. Junho 2011.

MADE IN USA, de novo?

Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a vã economia política. Quem acreditava, por exemplo, que o deslocamento das fábricas no espaço da acumulação capitalista global teria uma eterna mão única das “economias ricas” para as “emergentes”, agora se defronta com fortes sinais de um movimento contrário – a volta de grandes empresas norte-americanas para sua terra natal.

JOSÉ MARTINS.

Afinal, a economia da globalização estaria mudando? Para alguns, com muita rapidez. Em recente reportagem, a conhecida The Economist vai atrás dos analistas da Boston Consulting Group (BCG), poderosa empresa global norte-americana de consultoria, com 74 escritórios espalhados por 42 países, e que está a realizar uma revisão altamente estratégica a respeito da localização das fábricas em diferentes países nos próximos anos – a missão da BCG é descobrir os mais lucrativos territórios de caça pelo mundo e recomendar aos seus clientes capitalistas dos Estados Unidos, Europa e Japão para onde deslocar seu capital produtivo de valor e mais-valia.
O Sr. Hal Sirkin, dirigente da BCG, vai direto ao assunto: “Quando os clientes estão a pensar em abrir uma nova fábrica na China, eu os estimulo a considerar locais alternativos, Já pensaram sobre o Vietnã, por exemplo? Ou talvez, poderiam até tentar Made in USA?" Quando os clientes são empresas americanas que pretendem construir fábricas para atender os clientes norte-americanos, diz a The Economist, o Sr. Sirkin é cada vez mais inclinado a sugerir que fiquem em casa, não por razões patrióticas, mas porque a economia da globalização está em rápida mutação. 1

UMA BOMBÁSTICA PREVISÃO – Por trás dessas recomendações aos seus mega-investidores globais, um diagnóstico altamente explosivo: “Por volta de 2015, os fabricantes serão indiferentes entre a localização nos Estados Unidos ou na China na produção para o consumo nos Estados Unidos", completa o Sr Sirkin. No site da BCG ele repete a previsão de maneira mais rigorosa: “Prevê-se por volta de 2015 uma convergência dos custos do trabalho industriais na China e nos Estados Unidos. Como resultado de mudanças econômicas, veremos muito mais produtos „Made in USA‟ nos próximos cinco anos”. 2
Quer dizer, na opinião dos gurus da BCG os custos do trabalho nas manufaturas dos dois países tendem a se igualar nos próximos cinco anos, retirando o principal atrativo da exportação de capital industrial dos EUA para a China. Para chegar a essa conclusão, pressupõem que o crescimento dos salários continuará em torno de 17% ao ano na China, relativamente lento nos EUA, e que o crescimento da produtividade vai continuar a atual tendência em ambos os países. Também pressupõem uma valorização modesta do yuan frente ao dólar.
Não são pressupostos totalmente absurdos. Mas seriam suficientes para uma aposta tão elevada? Se estiverem certos, grandes explosões ocorrerão, necessariamente, nos próximos anos, na esteira de grandes ajustes estruturais na economia chinesa. Antes de qualquer julgamento apressado, porém, listemos outras observações muito interessantes que sustentam a previsão da BCG:
► “Com elevação dos salários chineses em cerca de 17 por cento ao ano e apreciação do yuan, o fosso entre os salários chineses e os dos EUA diminuirão rapidamente. Enquanto isso, flexibilização da regras trabalhistas e um conjunto de incentivos governamentais estão fazendo muitos estados dos EUA – como Mississipi, Carolina do Sul, Alabama – cada vez mais competitivos como bases de baixo-custo para o abastecimento do mercado dos EUA... Os trabalhadores e os sindicatos estão mais dispostos a aceitar concessões para trazer empregos de volta para os EUA. O apoio de governos estaduais e municipais pode ser o fiel da balança.”
► “Os EUA tornam-se um país baixo-custo entre as nações desenvolvidas. A Europa Ocidental, que não possui a flexibilidade de salários e benefícios que os EUA apresentam, continuará a contar com taxas salariais relativamente mais baixas da China.”
► “Grande número de empresas, especialmente as norte-americanas, já estão repensando seus locais de produção e de fornecimento de bens a serem vendidos nos EUA. Para alguns, a economia já atingiu um ponto de inflexão. Caterpillar Inc., por exemplo, anunciou no ano passado a expansão das suas operações nos EUA com a construção de uma nova unidade de fabricação de escavadeiras hidráulicas, em 600 mil metros quadrados, em Victoria, Texas. A NCR Corp. anunciou no final de 2009 que estava trazendo de volta a sua produção de ATMs para Columbus, Geórgia, a fim de diminuir o tempo de mercado, aumentar a colaboração interna e menores custos operacionais. A fabricante de brinquedos Wham-O Inc. no ano passado repatriou 50 por cento da sua produção da China e do México para os EUA...”
► “Se você está apenas comparando os salários médios na China contra aqueles nos Estados Unidos, você está olhando para o problema da maneira errada. O salário médio não reflete as verdadeiras decisões que as empresas têm para fazer... Nos EUA temos trabalhadores altamente qualificados em muitos dos nossos Estados de menor custo. Em contrapartida, nas regiões de baixo-custo na China é realmente muito difícil encontrar os trabalhadores qualificados que você precisa para executar uma planta eficaz... Após ajustes para contabilizar a produtividade relativamente mais elevada do trabalhador norte-americano, os salários em cidades chinesas como Xangai e Tianjin são cerca de apenas 30 por cento mais baratos do que nos Estados de baixo-custo dos EUA. E, uma vez que os salários representam 20 a 30 por cento do custo total de um produto, a fabricação na China será de apenas 10 a 15 por cento mais barato do que nos EUA, mesmo antes dos custos de estocagem e de transporte serem considerados. Depois desses custos serem incluídos, a vantagem do custo total vai cair para um dígito ou mesmo desaparecer completamente”.
Resta-nos agora fazer uma avaliação crítica de tudo isso. No próximo boletim. Até lá!

 1 The Economist – Moving back to America. The dwindling allure of building factories offshore [Voltando para a América. O fascínio cada vez menor de construir fábricas no exterior] – 12/Maio/2011. www.economist.com
2 Boston Consulting Group (BCG) – Made in the USA, Again: Manufacturing Is Expected to Return to America as China’s Rising Labor Costs Erase Most Savings from Offshoring – 05 Maio/ 2011. http://www.bcg.com

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Crítica Semanal da Economia.

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EDIÇÃO 1097 – Ano 26; 4ª semana março 2012.


Desconstruindo a Oral-B. 

Começa a ficar mais lucrativo fabricar nos EUA mercadorias que nas últimas décadas eram fabricadas em economias dominadas dos Brics e mesmo em economias dominantes da Europa e Japão.

JOSÉ MARTINS.

As mudanças mais profundas na economia mundial se apresentam nas mercadorias mais simples do nosso dia a dia. Em uma escova de dentes, por exemplo. Se alguém entrar em uma farmácia ou supermercado no Brasil e comprar uma escova da marca Oral-B pode ser surpreendido por um inesperado FABRICADO NOS EUA. Não mais MADE IN CHINA, como se acostumou para esse tipo de produto de consumo leve. No verso da embalagem, um giro pela novíssima e não menos explosiva face da divisão internacional do trabalho:

Fabricado por:
Oral-B Uma divisão da Procter & Gamble
1832 Lower Muscatine Rd., Iowa City,
52240-4502, Iowa, USA

Embalado por:
Procter & Gamble Manufactura
Loma Florida No. 32 Col. Lomas de Vista Hermosa
Delg. Cuajimalpa de Morelos 05100 México, DF.

Importado por:
Procter & Gamble do Brasil S/A
Rua E, nº 1457, Campo Alegre, Queimados – RJ
CEP 26373-280. CNPJ 59.473.770-69.

Produz nos EUA, embala no México, exporta para o Brasil. O que leva a gigante Procter & Gamble a fabricar e montar no seu pais de origem uma simples escova de dentes? O capital muda de pele. De novo. A P&G é a maior produtora mundial de artigos de higiene pessoal e limpeza, além de um monte de eletrodomésticos, etc. Emprega 127 mil trabalhadores em todo o mundo. Ocupa a 21ª colocação na lista das Maiores Empresas do Mundo do Financial Times Global 500. Faturamento em 2011: US$ 80 bilhões; lucro líquido: US$ 12,4 bilhões; taxa de lucro: 16,25%.
Importante: estamos a falar de uma empresa de manufatura industrial, a esfera mais importante de uma economia nacional. Coisa que parece estar a desaparecer no Brasil, como reclamam os protocapitalistas da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) como visto no boletim anterior. Pura crueldade das virtuosas forças do livre mercado: o desenvolvimento desigual e combinado do sistema imperialista cobra seu preço na moeda mais preciosa do desenvolvimento econômico internacional. O faturamento da P&G equivale a cerca de um quarto da produção industrial brasileira. É mole? É o por quê dessa desigualdade que deveriam responder os amantes dos Brics da mais-valia absoluta– pagamento do salário abaixo do valor da força de trabalho, prolongamento da jornada, etc. – e não ficar pateticamente reclamando da taxa de câmbio, dos impostos e de outras superficialidades do processo.
Mas o problema agora é o seguinte: não seria mais lucrativo para a P&G, como de resto já fez nas últimas décadas da globalização, o deslocamento da montagem e embalagem da Oral-B para imundas economias de baixo custo (leia-se valorização do capital com predominância da mais-valia absoluta) como China, México, Brasil, Haiti, Egito, e outros desqualificados maquiadores de bens de consumo das empresas globais? Talvez a resposta esteja já embutida na própria pergunta: a P&G voltou a produzir sua escova de dentes nos EUA porque começa a ficar mais lucrativo fabricar nos EUA mercadorias que nas últimas décadas eram fabricadas em economias dominadas e mesmo em economias dominantes da Europa e Japão.
Duvidoso? Um pouco. Mas já tratamos desta e de outras dúvidas, de maneira mais ou menos extensa, em uma série de boletins no segundo semestre do ano passado. Incluindo o que ostentava o título Made in USA, de novo?– edição 1065, 1ª semana de Junho/2011. Lembram-se da chamada? “Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a vã economia política. Quem acreditava, por exemplo, que o deslocamento das fábricas no espaço da acumulação capitalista global teria uma eterna mão única das “economias ricas” para as “emergentes”, agora se defronta com fortes sinais de um movimento contrário – a volta de grandes empresas norte-americanas para sua terra natal”. E da conclusão? “Os custos do trabalho nas manufaturas dos dois países [EUA e China] tendem a se igualar nos próximos cinco anos, retirando o principal atrativo da exportação de capital industrial dos EUA para a China”.
O caso da Oral-B “fabricada nos EUA” com que nos defrontamos nesta semana é importante exatamente porque se trata de uma manifestação (comprovação?) altamente didática dos movimentos mais profundos da acumulação do capital mundial que, em parte, abordamos naqueles nossos boletins do ano passado. Agora, menos de um ano depois, além da singela aparição da Oral-B, aparecem também outros elementos mais pesados no desdobramento do ciclo econômico atual a esclarecer melhor aquelas mudanças na divisão internacional do trabalho. É o que veremos, é claro, no próximo boletim.

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