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Crítica Semanal da Economia

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EDIÇÃO nº 1038; ano 25; 2ª Semana Outubro 2010.

EMPREGO MAGRO E LUCROS GORDOS.

Neste momento, as burguesias das diferentes nações do mundo (começando pelas dominantes dos EUA, Eurozona e Japão) patinam perigosamente sobre uma fina camada de gelo, quer dizer, de governabilidade. Os próximos meses na economia serão decisivos.

José Martins

          A fortíssima recuperação da riqueza da burguesia norte-americana dos estragos da última crise, como mostrado anteriormente, é vista cada vez mais como um disparate pela maioria da população. E o ambiente social tende a ficar ainda mais pesado. O Departamento do Trabalho dos EUA divulgou, nesta semana, que foram eliminados mais postos de trabalho do que previsto em Setembro de 2010. A taxa de desemprego se manteve em 9,6%.
          O desemprego dos trabalhadores não mostra sinal de recuperação porque as empresas capitalistas estão reduzindo brutalmente as massas salariais – e o correspondente custo unitário da força de trabalho – despendidas na produção do capital. O resultado? Deixemos que os próprios capitalistas – representados aqui pelo maior jornal de negócios do mundo – respondam a nossa pergunta:
“Empresas americanas têm conseguido se recuperar bem da recessão e registrar lucros altos, resultado da agressiva reestruturação de suas operações, realizada para sobreviver com faturamento menor e futuro incerto. Uma análise do Wall Street Journal constatou que empresas integrantes do índice Standard & Poor's 500 divulgaram lucro de US$ 189 bilhões no segundo trimestre, 38% a mais que no mesmo trimestre de 2009 e o sexto maior lucro trimestral delas em toda a história, sem ajustar pela inflação.
          Enquanto companhias começam a divulgar resultados para o terceiro trimestre, encerrado há poucos dias, a expectativa é que o forte crescimento continue, embora num ritmo menor, segundo a S&P. Para todas as empresas americanas, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos calcula que o lucro no segundo trimestre, depois dos impostos, cresceu para um total anualizado de US$ 1,2 trilhão no segundo trimestre, 2,9% maior que no primeiro e 25,3% maior que um ano antes. A taxa anualizada é a mais alta já registrada, embora não compute a inflação.
          Os dados indicam que as grandes empresas se recuperaram da crise muito mais rapidamente e com muito mais saúde que o resto da economia, o que ajudou a impulsionar a bolsa este ano. Para conseguir essa expansão dos lucros, as empresas demitiram milhares de trabalhadores, fecharam divisões menos lucrativas, transferiram atividades para regiões mais baratas e reestruturaram seus processos... „O custo humano de demitir sempre é doloroso, mas, estranhamente, os problemas econômicos nos ajudaram a criar uma empresa mais forte’, disse John Riccitiello, diretor-presidente da produtora de videogames Electronic Arts, sediada em Redwood City, Califórnia.” [The Wall Street Journal (Portuguese) – “Crise enxuga empresas nos Estados     Unidos, mas engorda lucros” – 05/Outubro/2010 http://online.wsj.com)
          De um lado, as 500 maiores empresas industriais dos EUA (listadas no índice Standard & Poor’s 500 da Bolsa de Valores de Nova York) enxugam os salários e o número de trabalhadores engajados na produção; de outro lado, engordam os lucros dos capitalistas e, conseqüentemente a riqueza do Richistão, que falamos no boletim anterior. A minoria burguesa, isolada pelos muros do Richistão, se recupera, enquanto a imensa maioria da população do país se aperta nas filas de procura por emprego.
          A importância de se detalhar essa sinistra dialética capitalista, entretanto, não se limita a um problema de repartição do produto social entre lucros, rendas e salários. Além das considerações morais de desigualdades de “distribuição da renda entre ricos e pobres”, existem coisas muito mais importantes a serem avaliadas. Encontra-se, por exemplo, no olho do furacão da luta de classes, o problema da governabilidade burguesa e da crise social que pode explodir no centro do sistema. Até quando os capitalistas vão conseguir aumentar seus lucros, como vimos na descrição acima do The Wall Street Journal, e manter a paz social atual, mesmo com taxa de desemprego oficial em torno de 10% da população?
          Neste momento, as burguesias das diferentes nações do mundo (começando pelas dominantes dos EUA, Eurozona e Japão) patinam perigosamente sobre uma fina camada de gelo. A manutenção da atual estabilidade do Estado e da governabilidade burguesa depende de uma coisa muito precisa: evitar a qualquer custo, nos próximos seis meses, o duplo mergulho, quer dizer, a recaída da crise econômica de 2008/2009 e o aborto da complexa e cheia de sutilezas recuperação iniciada na virada do segundo para o terceiro trimestre de 2009. A política depende da economia.
          É por isso que no próximo boletim retornaremos à análise detalhada da situação e das perspectivas da recuperação cíclica da produção que se desenrola neste exato momento: produção, deflação, sistema financeiro, crise do crédito público (e do privado), “guerras cambiais”, e tantas outras importantes variáveis econômicas fundamentais para o desdobramento da luta de classes e, consequentemente, para os destinos da humanidade.
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